sexta-feira, setembro 30, 2005

Leituras sobre as "Noites"

A cultura

PEDRO LOMBA

A primeira vez que eu percebi que havia algo de errado comigo, isto é, que eu não era de esquerda, foi no liceu, durante uma aula de História. Falava-se sobre a revolução de 1383-1385. A minha professora jurava que o Mestre de Avis era marxista. Não me parecia bem. Para mim, o Mestre de Avis podia ser muita coisa mas não, não era marxista. A partir daí comecei a desconfiar de tudo o que me diziam e, quando me recomendavam um livro, procurava primeiro referências para descansar. Isto vem a propósito do último debate "Noites à Direita - Projecto liberal" que, na semana passada, recaiu sobre as relações entre a direita e a cultura.

Pedro Mexia e Rui Ramos estiveram do lado da direita, António Mega Ferreira da esquerda e Manuel Falcão moderou. A conversa foi fascinante. O debate partiu, como não deixaria de ser, de uma afirmação recorrente quando se aborda o tema a esquerda aposta numa visão cultural do mundo e, por isso, na valorização das elites culturais, enquanto a direita pende para o economicismo e para uma sistemática desconfiança do chamado "mundo da cultura".

No final, esta tese "marxista" saiu desmistificada. Foi em grande parte por causa do comunismo e da durabilidade do comunismo no século XX que a pretensa hostilidade da direita à cultura começou a ser usada como argumento político contra ela. No século XIX ninguém se lembraria de dizer que os conservadores ou os monárquicos não liam livros, até porque as elites liam livros. Constant ou Chateaubriand, os românticos alemães, todos estiveram à direita. A distinção não se fazia. Foi o comunismo e a sua influência nos intelectuais das esquerdas que alterou drasticamente estas regras. Os intelectuais foram postos ao serviço de um processo de idealização política do mundo. Os intelectuais ao serviço de utopias. Quando estas faliram, os intelectuais voltaram para casa. Onde estão melhor.

No "Diário de Notícias" de hoje